A doença hepática gordurosa não alcoólica, hoje oficialmente chamada de Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD), tornou-se a doença hepática crônica mais comum no mundo. Estima-se que afete cerca de 30% a 40% da população adulta global, e sua prevalência cresce exponencialmente devido aos altos índices de obesidade, diabetes tipo 2 e consumo excessivo de alimentos ultraprocessados [1].
A boa notícia é que a esteatose hepática é uma condição reversível. A base do tratamento não é medicamentosa, mas sim uma mudança estrutural no estilo de vida. A literatura científica recente reforça que o acompanhamento com um nutricionista é fundamental para estruturar uma intervenção dietética segura, personalizada e capaz de promover a regressão da gordura no fígado.
O Impacto da Perda de Peso na Saúde do Fígado
A perda de peso sustentada é a principal intervenção recomendada pelas diretrizes clínicas internacionais, incluindo as diretrizes europeias EASL-EASD-EASO de 2024 [2]. A quantidade de peso perdida determina o grau de melhora hepática. Estudos demonstram que existem metas claras e atingíveis para cada estágio da doença:
A perda de pelo menos 5% do peso corporal já é suficiente para reduzir significativamente a quantidade de gordura acumulada no fígado (esteatose). Quando a perda de peso atinge entre 7% e 10%, observa-se uma melhora na inflamação hepática (o quadro que evolui para a esteato-hepatite, ou MASH). Por fim, para estabilizar ou até mesmo reverter a fibrose hepática (cicatrização do fígado), é necessária uma perda de peso superior a 10% [1] [2].
O grande desafio é manter essa perda de peso a longo prazo. É aqui que o papel do nutricionista se torna indispensável, evitando dietas restritivas da moda que levam ao efeito sanfona e agravam a resistência à insulina, um dos principais motores da esteatose.
A Dieta Mediterrânea como Aliada Principal
Embora existam diversas abordagens dietéticas, a Dieta Mediterrânea é atualmente o padrão-ouro recomendado para o manejo da esteatose hepática [3]. Ao contrário de dietas de restrição calórica severa, a Dieta Mediterrânea foca na qualidade dos alimentos e na densidade nutricional.
Este padrão alimentar é rico em gorduras monoinsaturadas (como o azeite de oliva extra virgem), polifenóis, fibras e ômega-3. Um estudo publicado em 2025 na Frontline Gastroenterology destacou que a adesão a este padrão alimentar reduz a gordura hepática e melhora o perfil lipídico, independentemente da perda de peso em alguns casos [3].
A estrutura ideal do prato, segundo recomendações da Mayo Clinic, inclui:
- Vegetais e frutas: Metade do prato deve ser preenchida com vegetais não amiláceos (brócolis, espinafre, abobrinha) e frutas inteiras (evitando sucos).
- Proteínas magras: Foco em peixes gordurosos (salmão, sardinha), frango, ovos e leguminosas (feijão, grão-de-bico, lentilha).
- Carboidratos complexos: Grãos integrais, substituindo farinhas brancas e refinadas.
- Gorduras boas: Uso de azeite de oliva, abacate e castanhas, eliminando gorduras trans e óleos vegetais refinados.
Alimentos que Devem ser Evitados
Para reverter a esteatose, é tão importante saber o que comer quanto o que evitar. O consumo excessivo de frutose (açúcar das frutas, mas principalmente o açúcar adicionado e xarope de milho) e carboidratos refinados (pães brancos, massas, doces) estimula o fígado a produzir e armazenar gordura diretamente através de um processo chamado lipogênese de novo [4].
Além disso, a ingestão regular de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas está fortemente associada à progressão da doença, conforme alertam revisões recentes [1]. O álcool, por sua vez, deve ser completamente abolido em casos de diagnóstico confirmado, pois adiciona um estresse tóxico a um fígado que já está inflamado.
A Importância do Acompanhamento Profissional
A esteatose hepática é silenciosa. Muitos pacientes não apresentam sintomas até que a doença evolua para cirrose ou problemas cardiovasculares. A reeducação alimentar para esteatose exige um planejamento detalhado que leve em conta a rotina do paciente, suas preferências culturais e possíveis restrições.
A intervenção nutricional estruturada não apenas reduz a gordura no fígado, mas melhora a sensibilidade à insulina, reduz a pressão arterial e protege o coração. Consultar um nutricionista para desenvolver um plano de perda de peso gradual e sustentável é o passo mais importante para reverter o diagnóstico e garantir uma vida longa e saudável.
REFERÊNCIAS
[1] Sheikh MY, Younus MF, Shergill A, Hasan MN. “Diet and Lifestyle Interventions in Metabolic Dysfunction-Associated Fatty Liver Disease: A Comprehensive Review.” International Journal of Molecular Sciences. 2025; 26(19):9625. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12524441/
[2] Tacke F, et al. “EASL-EASD-EASO Clinical Practice Guidelines on the management of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD).” Journal of Hepatology. 2024.
[3] Pekarska K, et al. “Nutrition in MASLD: a patient focused, evidence-based clinician’s guide.”Frontline Gastroenterology(BMJ). 2025; 17(3):262.
[4] Mayo Clinic. “Fatty liver disease (MASLD) diet.” Dez 2025. Disponível em:https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/fatty-liver-disease-masld/in-depth/fatty-liver-disease-masld-diet/art-20588469
[5]Foto: CANVA