Emagrecimento, Nutrição Esportiva

O PERIGO INVISÍVEL POR TRÁS DOS ANÁLOGOS DO GLP-1 NA MARATONA: DEFICIÊNCIA ENERGÉTICA E RISCO DE LESÃO

Os análogos do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), como a semaglutida, e os duplos agonistas GLP-1/GIP, como a tirzepatida, revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes. No entanto, com o aumento do uso por atletas de endurance para controle de peso e composição corporal, um perigo invisível surge durante os ciclos de treinamento para a maratona: a Síndrome da Deficiência Energética Relativa no Esporte (RED-S). Como nutricionista, é fundamental alertar para os riscos de recuperação prejudicada e o aumento expressivo de lesões.

 

A Tempestade Perfeita: Deficiência Energética (RED-S)

O treinamento para uma maratona exige um volume e uma intensidade elevados, resultando em um gasto energético monumental. O objetivo de um nutricionista esportivo é garantir que o atleta atinja a disponibilidade energética adequada para suportar essa demanda. No entanto, o uso de análogos do GLP-1 suprime drasticamente o apetite e induz a saciedade precoce [1].

 

Quando um maratonista utiliza esses fármacos sem o devido acompanhamento, a ingestão calórica frequentemente não acompanha o gasto energético, precipitando o quadro de RED-S. Esta deficiência energética impacta negativamente o metabolismo ósseo, a função imunológica e a síntese de proteínas [2]. A consequência direta é um comprometimento severo da recuperação muscular entre os treinos, transformando o ciclo de treinamento em um fardo para o corpo.

 

O Impacto Gástrico e a Desidratação

Além da redução calórica, a semaglutida e a tirzepatida retardam significativamente o esvaziamento gástrico [3]. Para um corredor de maratona, isso é catastrófico. Durante os treinos de longa duração, o atleta necessita repor fluidos e carboidratos (gels ou bebidas esportivas) para manter o desempenho e a hidratação. Com o estômago “preso”, a absorção desses nutrientes torna-se lenta, gerando distensão abdominal, náuseas severas e refluxo [4].

 

Ainda mais alarmante, os agonistas do GLP-1 podem atenuar o mecanismo de sede [5]. Em conjunto com o atraso no esvaziamento gástrico, isso cria um risco altíssimo de desidratação durante a corrida, comprometendo a termorregulação e a performance cardiovascular.

 

Perda de Massa Magra e Fragilidade Óssea

O perigo se agrava quando analisamos a composição corporal. O uso de tirzepatida e semaglutida está associado a uma perda significativa de massa magra (músculos), que pode representar até 40% a 60% do peso total perdido, caso não haja intervenções rigorosas de resistência e aporte proteico [6]. Para o corredor de maratona, a perda de massa muscular compromete a economia de corrida e a capacidade de gerar força de propulsão.

 

Além disso, a perda de peso rápida combinada com a deficiência energética (RED-S) aumenta o risco de osteoporose e fraturas por estresse [7]. A tirzepatida, em particular, tem sido associada a uma maior perda de densidade mineral óssea [8]. Como nutricionista, enfatizo que corredores submetidos a impactos repetitivos já possuem um risco inerente de lesões ósseas; adicionar uma deficiência energética induzida por fármacos eleva esse risco a níveis críticos.

 

A Orientação do Nutricionista Esportivo

A maratona é uma prova de resistência extrema que demanda suporte nutricional preciso. O uso de análogos do GLP-1 e duplos agonistas GLP-1/GIP pode sabotar os ciclos de treinamento se não forem gerenciados com extrema cautela. O papel de um nutricionista especializado é indispensável para:

 

  • Ajustar a Densidade Calórica: Prescrever alimentos e suplementos que contornem o esvaziamento gástrico lento e a saciedade precoce, garantindo a disponibilidade energética necessária para o metabolismo ósseo e a recuperação muscular.
  • Proteção da Massa Magra: Estruturar um plano de alimentação hiperproteico alinhado ao treinamento de força para mitigar o catabolismo muscular induzido pelo fármaco.
  • Estratégia de Hidratação: Criar protocolos de hidratação forçada e cronometrada para contornar a supressão do mecanismo de sede.

 

O controle de peso através de fármacos pode ser benéfico, mas na maratona, o preço de uma deficiência energética mal gerida é pago com fraturas por estresse, lesões musculares e a interrupção do sonho de cruzar a linha de chegada. A consulta regular com um nutricionista é a medida preventiva mais eficaz para que a tecnologia farmacológica não se torne o calcanhar de Aquiles do atleta.

 

REFERÊNCIAS

[1] U.S. Anti-Doping Agency (USADA). “Weight Loss Drugs: What athletes need to know about GLP-1s.” Disponível em: https://www.usada.org/spirit-of-sport/weight-loss-drugs-glp-1s/

 

[2] Angelidi, A. M., et al. (2024). “Relative Energy Deficiency in Sport (REDs).” Endocrine Reviews, 45(5), 676. Disponível em: https://academic.oup.com/edrv/article/45/5/676/7629683

 

[3] Jalleh, R. J., et al. (2024). “Clinical Consequences of Delayed Gastric Emptying With GLP-1 Receptor Agonists.” PMC. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11651700/

 

[4] SportsMD. “GLP-1 and the Overweight Athlete.” Disponível em: https://www.sportsmd.com/2025/12/04/glp-1-and-the-overweight-athlete/

 

[5] SportsMD. “Ozempic for Endurance Athletes: Benefits, Risks & What You Need to Know.” Disponível em: https://www.sportsmd.com/2025/12/09/ozempic-for-endurance-athletes-benefits-risks-what-you-need-to-know/

 

[6] Neeland, I. J., et al. (2024). “Changes in lean body mass with glucagon‐like peptide‐1 receptor agonists.” Diabetes, Obesity and Metabolism. Disponível em: https://dom-pubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/dom.15728

 

[7] Kim, D. R., et al. (2023). “Relative Energy Deficiency in Sport (RED-S) and Bone Stress Injuries.” Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1060187223000515

 

[8] Hsu, Y. H., et al. (2025). “Association of tirzepatide use with risk of osteoporosis or fragility fractures.” Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0168822725010101

 

[9] Foto: Canva

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